O Talho do Sr. António Azevedo

A Revista Aldeias Vivas esteve à conversa com Élio Azevedo, nascido em Lisboa mas com sangue valeformosense, que nos contou a história do talho do seu avô, António Azevedo.

Fachada talho Sr. António Azevedo, Aldeias Vivas
Fachada do edifício onde funcionava o talho do Sr. Azevedo

“Desde sempre foi uma referência, no Largo da Praça, o talho do Sr. Azevedo.

Longe vão os tempos em que a vida era dedicada à busca, clandestina, do minério nos solos das terras circundantes de Vale Formoso. Esta atividade era clandestina mas o destino final acabava por ser a extinta fábrica nacional de material de guerra pois António Azevedo nasceu na segunda década do século passado e as guerras foram acompanhando o seu percurso de vida. A primeira guerra mundial (1914-1918) ainda criança, a segunda guerra mundial (1939-1945) já em idade adulta e por fim a guerra colonial (1961-1974).

Mas foi esta atividade empresarial que acabou por identificar António Azevedo na região onde nasceu e sempre viveu.

Os dias de mercado, fossem em Belmonte ou mais distanciados, eram sempre dia de agitação pois era nesses centros mercantis onde António Azevedo negociava as rezes para abate e desmanche. Após negociar com os proprietários dos animais, a recolha dos mesmos era efetuada posteriormente pelo empregado do comerciante, recordando João Curto que desempenhou essa função.

O meio de transporte nunca foi outro senão exemplares equídeos, ou machos ou fêmeas e era assim que percorria dezenas de quilómetros desde que saía, ainda de madrugada, até ao regresso a casa.

Na sua ausência quem assumia o comando do estabelecimento comercial era a esposa, Sra Maria, uma mulher de trabalho, responsável pelo lar, pelos enchidos produzidos artesanalmente e fumados na chaminé da cozinha onde habitualmente a lenha crepitava lentamente dando assim um gosto especial à panóplia de enchidos produzidos pela própria que iam desde os chouriços de carne, morcelas, chouriço mouro até às saborosas farinheiras. No verão grande parte destes produtos eram adquiridos pelos emigrantes Vale Formosenses para levarem para França, Suíça e Alemanha e assim poderem, durante o ano de trabalho, matar saudades da terra que os viu nascer deliciando-se com produtos “made in” Vale Formoso.

A arte de bem saber dominar o abate e desmanche das rezes levava muitas vezes à solicitação para estar presente nas preparações de festas sociais como casamentos e batizados caso houvesse algum animal a ser utilizado como repasto. Tal aconteceu no casamento do filho mais novo, Alfredo Azevedo, realizado em Lisboa e onde lhe coube a missão de “tratar” de uma vitela e de outras rezes para o repasto de todos os convivas nesse dia tão especial.

Sr. António Azevedo, Aldeias Vivas

Um problema de saúde originado pela queda de um cavalo deu origem a uma lesão, na cabeça do fémur, que o impediu de dar continuidade à atividade profissional. Assim sendo deixou as facas, a balança de balcão e uma velhinha balança romana de lado para se dedicar mais ao seu hobbie de sempre, o cultivo de produtos hortícolas no quintal que era proprietário não muito distante da casa onde vivia.

Veio a falecer no ano de 1997, mas aquela porta azul do Largo da Praça será sempre recordada como a porta do talho do Sr. António Azevedo.”

Sr. António Azevedo, Aldeias Vivas
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