Escola Profissional Agrícola da Quinta da Lageosa

Agostinho Ferreira

“Não faltam boas ideias por aí, mas a verdade é que estes territórios do interior estão a desaparecer a uma tal velocidade que não conseguimos dar resposta em tempo útil”.

Agostinho Ferreira, diretor da Escola Profissional Agrícola Quinta da Lageosa

Como descreve Escola Profissional Agrícola Quinta da Lageosa?

De uma forma resumida é uma escola intimista, voltada para os recursos naturais e que valoriza sobretudo o aluno na sua essência. Tem cerca de 320 hectares destinados em especial à formação dos nossos alunos como missão principal da escola. Cerca de metade desta área é floresta e outra metade é composta por culturas arvenses e pomares, temos também áreas de pecuária com ovinos, vacas leiteiras e cavalos.

A história diz que a quinta foi doada por um particular, verdade?

Sim, uma parte dessa quinta foi doada ao Estado português com a condição de aqui ser ministrado o ensino agrícola. Sabemos que o proprietário da quinta, o doutor Júlio de Campos Melo e Matos era uma pessoa muito importante, acarinhada em toda a região e deu trabalho a muita gente. Sabemos também que nasceu no Porto onde se encontra sepultado, exatamente no cemitério da Lapa.

Temos uma disciplina de equitação terapêutica destinada ao autismo, paralisia e síndrome de Down.

Dentro dos cursos profissionais agrícolas, cada escola tem uma pequena margem de liberdade de escolher as UFCD, Unidades de Formação de Curta Duração. Temos por exemplo, uma disciplina de equitação terapêutica destinada a alunos com autismo, paralisia e síndrome de Down. Não conheço escola nenhuma que faça como nós, já começámos há três anos e está demonstrada a importância desta vertente. Considero no entanto que deveria ter um caracter mais profissional, com um conjunto de pessoas preparadas. É pois importante que alguém veja o nosso trabalho e os nossos recursos para podermos melhorar esta área.

“A serra que temos é de facto uma mais-valia em termos turísticos na área da natureza”

O desenvolvimento rural, aqui seria a base. Não podemos olhar para a área rural sempre da mesma maneira. Por exemplo a serra que temos é de facto uma mais-valia em termos turísticos na área da natureza. Não é uma serra protegida porque está fora do parque natural da Serra da Estrela e podíamos pensar em dinamiza-la (…).Por outro lado a nossa Escola deve ser um viveiro de experiências, e ser vista como uma instituição geograficamente mais alargada e não apenas restrita à região da Covilhã.

Se ele fosse vivo e pudesse fazer uma visita à quinta, será que ficaria satisfeito com o que via?

Eu acho que o doutor Júlio de Campos Melo e Matos ficaria satisfeito, não ia dar uma nota negativa com toda a certeza, pois ele entenderia que se trata de uma escola que tem uma quinta, e não uma quinta que tem uma escola, portanto a vocação principal desta instituição é formar, não propriamente enveredar pela exploração agrícola. A formação é o nosso fundamento e nesse aspeto temos vindo a cumprir, eu diria com uma nota bem positiva.

A escola tem vindo a atualizar-se ao longo destes setenta anos de existência?

Os cursos são determinados pela tutela, pelo que aí não podemos intervir. Esta instituição já foi Escola Secundária de Aldeia do Souto, e posteriormente uma secção da Escola Secundária Campos Melo da Covilhã. Só a partir do ano de 1991 é que passou a designar-se Escola Profissional Agrícola, e desde então tem vindo a cumprir a sua missão fundamental que é a formação, embora considere que tem capacidades e recursos para ir mais longe.

Ir mais longe dentro do ensino profissional agrícola?

Esta escola tem sido como as outras e não deve porque tem recursos para muito mais. Repare que estamos a falar de 320 hectares, com uma diversidade enorme de fauna e flora, portanto apesar de já se diferenciar, deveria ainda diferenciar-se mais.

Por exemplo, teria capacidade para ser uma escola superior ou universidade?

Poderia ter sido se isso tivesse sido decidido há 30 anos atrás, agora não vale a pena.

Acha que as entidades oficiais não conhecem a Vossa realidade?

Eu acho que isto não é uma questão de conhecer ou não conhecer, o importante é vermos as coisas de um outro prisma. Devo dizer que há boas ideias, pois elas não faltam ideias por aí, mas a verdade é que estes territórios estão a desaparecer a uma tal velocidade que não conseguimos dar resposta em tempo útil, e terão de ser os políticos regionais a agir e não estar à espera de Lisboa.

A Escola pode ceder terrenos, fazer parcerias com os fruticultores aqui da região para alargarem as suas áreas de exploração?

Poderá eventualmente haver essa possibilidade, mas não é a nossa missão fundamental. Preferia ver uma parceria na área da conservação do germoplasma vegetal e de ensaios de novas variedades. Seria bom que os fruticultores tivessem aqui uma coleção genética por exemplo de todas as variedades existentes de pêssego, já que cabe ao Estado e não aos produtores a preservação do património genético.

Colocou aqui várias ideias, com vista a um desenvolvimento rural. Quem deve chegar-se à frente?

Neste caso eu diria que os recursos estão aqui, agora haja alguém que avance e que proponha parcerias à Escola. No caso da hipoterapia por exemplo, gostaria que esta área fosse mais abrangente a toda a comunidade, proporcionar aos jovens em geral a prática da equitação (…).

Para terminar, acha que há qualidade de vida nas aldeias?

As aldeias até podem ter qualidade de vida, as pessoas podem ter saúde mas faltam-lhes as oportunidades de trabalho, por isso acabam por sair para os centros mais urbanos.

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