Descoberta da Moura

Entre a Guarda e a Covilhã, frente a Belmonte, ergue-se o povoado de Vale Formoso, outrora palco de uma importante representação popular: A Descoberta da Moura. Nas lutas de faz-de-conta entre cristãos e mouros, Vale Formoso, no concelho da Covilhã, guarda um fascinante episódio. Este que é recordado com nostalgia pelo povo da Beira Baixa. Na terra, por o terem presenciado ou terem ouvido falar todos sabem do evento.

A história da Descoberta da Moura:

Reza a lenda que existia uma Moura escondida na floresta e para os carpinteiros e pedreiros da região a conseguirem salvar tiveram de enfrentar um terrível monstro que vivia nessa mesma floresta. O Rei Mouro que se achava mais inteligente que todos os outros, mandou o seu cavaleiro sequestrar a Moura. Eventualmente, quando o povo se apercebeu desse facto juntou-se para a tentar salvar, falhando. O povo desesperado chamou o exército para o ajudar, tendo sido destacado um cavaleiro de cavalaria para lutar com o cavaleiro mouro, saindo o primeiro ileso do combate e salvando a Moura, outrora sequestrada. Todos os outros prisioneiros, do rei mouro, foram libertados com grande folia, fazendo-se uma grande festa por toda a aldeia.

A realização da Descoberta da Moura que envolvia toda a população fazia lembrar antigos combates entre mouros e cristãos. Estes culminavam na conquista do Castelo e na libertação da bela princesa moura.

Antes de 1951, há referência a uma só representação de A Descoberta da Moura, tendo sido eventualmente em 1918 ou 1919. Sendo de admitir espetáculos em datas anteriores, não há, contudo, testemunhos disso. Seguro é dizer-se, todavia, que após 1951 e até aos nossos dias, não mais Vale Formoso se animou com as inflamadas lutas entre a mourama e a cristandade.

No dia 9 de setembro de 1951, o antigo Largo do Espírito Santo, hoje Joaquim Pereira de Macedo, foi pequeno para albergar tanta gente.

No dia 9 de setembro de 1951, o antigo Largo do Espírito Santo, hoje Joaquim Pereira de Macedo, foi pequeno para albergar tanta gente. Nas abas do largo, em bancadas construídas para o efeito, no cimo das casas de propósito destelhadas, nas janelas assim como nas varandas, reuniu-se o público, cerca de duas mil pessoas. Os ingressos custavam 2$50 e os valores da bilheteira foram destinados a financiar as despesas bem como a contribuir para a reparação da capela da Nossa Senhora da Saúde.

Na altura a personagem que interpretou a moura era uma habitante de Vale Formoso. Maria Suzel Azevedo, disse-nos que tinha 11 anos quando fez o papel. Que não falava, só utilizava a língua gestual, levava um vestido de seda, branco-pérola assim como muito ouro.

Vale Formoso, terra de mulheres bonitas, esmerou-se na escolha da moura. As velhas fotografias da representação, não nos deixam duvidar .

Vale Formoso, terra de mulheres bonitas, esmerou-se na escolha da moura. As velhas fotografias da representação, não nos deixam duvidar. Maria Suzel Azevedo acrescentou: “Eu estava na floresta, fechada numa laje. Atraídos pela música, vieram uns caçadores. Intrigados, chamaram um grupo de pedreiros, partiram a laje, libertaram-me”. Mas a história complicou-se, acabei por ser levada para o castelo dos mouros. Depois de muita luta, os soldados resgataram-me. Posteriormente, dei a volta à aldeia em apoteose, levada no cavalo do comandante dos militares.” Havia militares de vários ramos, Estêvão Gomes Marques tinha 22 anos à data da representação, andava na tropa a sério. Em cena, coube-lhe integrar o grupo de Artilharia.

Arménio Marques Matias, ex-presidente da Junta de Freguesia, tinha oito anos em 1951 e, portanto, não se lembra com exatidão como tudo se passou. Guarda, contudo a imagem de um cavaleiro montado num cavalo magnífico, cinzento, a galope, a juntar-se à Cavalaria e que havia crianças a ver tal como ele. De resto, afirma também que isto não é só uma lenda de cérebro, porque temos coisas palpáveis, como as fotografias e as pessoas que participaram.

“A maior dificuldade é a falta de gente…”

A possibilidade de reposição em cena da peça assume para Arménio Matias, contornos complicados, pois é um puzzle que está todo destruído. Por certo, a maior dificuldade é a falta de gente, afirmando que é muito provável que nós na aldeia não tenhamos pessoas disponíveis para fazer isto, teria de vir gente de fora. Esta peça teatral foi recriada pela última vez na aldeia de Vale Formoso nos dias 31 de julho, 1 e 2 de agosto de 2009.

Vale Formoso, com A Descoberta da Moura, é um exemplo da dificuldade em hoje trazer à cena velhas representações, quer na Beira Baixa quer noutras zonas do país.

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